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Acenda
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Estar junto sem deixar de ser quem se é

Será que pertencer significa encontrar pessoas parecidas conosco ou descobrir que podemos ser diferentes e, ainda assim, fazer parte?

Grupo de viajantes sentado em roda de conversa sob as árvores durante uma jornada

Costumamos construir nossas relações a partir das afinidades. Aproximamo-nos de quem compartilha nossos interesses, valores, hábitos e formas de enxergar o mundo. Aos poucos, nossos círculos se tornam espaços de familiaridade, onde encontramos reconhecimento e conforto.

Mas o que acontece quando dividimos uma experiência com pessoas que talvez nunca conheceríamos na vida cotidiana?

Uma viagem em grupo cria essa possibilidade. Pessoas de diferentes idades, histórias e maneiras de viver passam a compartilhar caminhos, refeições, desafios e descobertas. O que inicialmente as aproxima é apenas um destino. O que pode surgir dessa convivência é menos previsível.

Talvez uma das maiores riquezas do coletivo esteja justamente naquilo que não temos em comum.

Conviver com a diferença nos tira, em alguma medida, do centro das nossas próprias referências. Percebemos que aquilo que consideramos natural pode ser estranho para alguém, que o mesmo acontecimento admite interpretações diferentes e que nossas necessidades não são necessariamente as dos outros.

Durante uma viagem à Amazônia, por exemplo, uma mesma experiência pode despertar entusiasmo em alguém e desconforto em outra pessoa. O silêncio pode ser contemplação para uns e necessidade de recolhimento para outros. Compartilhar o mesmo caminho não significa vivê-lo da mesma maneira.

E é justamente aí que a experiência coletiva se torna interessante: não quando todos sentem a mesma coisa, mas quando aprendemos a reconhecer o que existe além da nossa própria percepção. Isso exige mais do que afinidade. Exige escuta, flexibilidade e a capacidade de não transformar nossas preferências em medida para as escolhas dos outros.

A individualidade não é um obstáculo ao pertencimento. É o que permite que o encontro aconteça entre pessoas inteiras, e não entre versões de nós mesmos adaptadas para sermos aceitos.

Talvez por isso algumas conexões inesperadas sejam tão significativas. Não porque encontramos alguém que pensa exatamente como nós, mas porque, diante de uma diferença, descobrimos a possibilidade de construir algo em comum.

E há algo profundamente enriquecedor nessa experiência: perceber que o outro não precisa confirmar nossa maneira de enxergar o mundo para que sua presença amplie aquilo que somos capazes de compreender.

Afinal, queremos pertencer a lugares onde nos reconhecemos nos outros ou também somos capazes de construir vínculos com aquilo que nos desafia a enxergar além de nós mesmos?

Texto por: Amanda Ferraz
Fundadora da Acenda, cientista política e professora de yoga

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